O tempo está em falta

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O tempo está em falta

As pessoas geralmente encontram uma desculpa quando estão com pressa: ‘Tempo é dinheiro’. O tempo possui um valor, mas, quando perdido, é irrecuperável. Diferente de uma moeda com a qual podemos negociar. O valor do tempo é a vida. Todos querem viver muito tempo e a queixa atual é: está me faltando tempo. Será que o tempo é um produto escasso no mercado? É comum debitarmos na conta da modernidade as razões para a pressa. Porém, reflitamos sobre um paradoxo: O transporte, a comunicação, os eletrodomésticos estão a cada dia possibilitando mais tempo às pessoas. Mesmo que hoje tudo funcione para perdermos o mínimo de tempo, temos a sensação que os ponteiros do relógio giram cada vez mais rápido. Se o tempo livre é buscado em cada produção atual, porque ele torna-se cada vez mais raro?

As visitas aos amigos são adiadas. A desculpa é o cansaço, a correria. Os pais tem menos tempo com os filhos. A desculpa é o fato da mulher trabalhar fora de casa. Nos engarrafamentos, vislumbramos vários automóveis com um só indivíduo em seu interior. A desculpa é que o caminho de cada um é particular. Os produtos são vendidos com uma proposta – a rapidez, a agilidade, a economia de tempo: ‘Fast’! ‘Fast food’! A urgência é uma necessidade. Por que estamos nos sentindo como se estivéssemos num pronto-socorro? À primeira vista, poderíamos dizer que é porque ninguém gosta de esperar. ‘Ninguém gosta de esperar’. Corrigimos está frase: ninguém gosta de esperar quando não sabe pelo que espera ou sente que alguém passou na sua frente. Esperar, ter esperança, desejar, nos torna mais humanos. Descobrimos então que o que está em falta, no novo milênio, não é o tempo, mas é a paciência.

As críticas a Freud, quando ele criou a Psicanálise, estavam ligadas à ideia de que a dor que ultrapassava o corpo tinha relação com a sexualidade. Hoje as críticas estão ligadas a prática da Psicanálise, que não se tem tempo para se analisar. Percebeu-se em cem anos que para aceitar uma ideia da qual fugimos em algum momento da nossa vida, enfrentamos uma forte resistência. Será que hoje, a resistência dos humanos novamente não está em ter paciência e encontrar-se com as dores da sua alma. As dores da alma clamam por alívio. Quando escutadas, encontram sentido e cura. Com pressa, sem paciência, em tratamentos ‘fast’, elas se calam e continuam chorando no escuro.

As crianças são espontâneas. Reportemo-nos a sua imaginação para entendermos a pressa do dia a dia. Escutamos: ‘é uma correria’, ‘hoje corri muito’, ‘todos estão correndo’, ‘corri para chegar aqui’. Uma criança perguntaria: correndo para onde? É uma competição? Tem alguém fugindo?

Fugindo. A corrida contra o tempo pode ser para fugir dele. O tempo silencioso, sem pressa, pode confrontar a pessoa com ela mesma, seus sonhos, suas fantasias. Os encontros consigo mesmo podem provocar uma angústia. Hoje há um culto tão grande a pressa que o alívio imediato é procurado. A pressa pode nos anestesiar de nós mesmos. Fugimos de quem somos, do que sentimos e então, corremos.

A pressa é inimiga da perfeição: errado. A perfeição não existe mesmo, a pressa é nossa inimiga. Este ditado serve porque quem tem pressa geralmente busca a perfeição e o único jeito de ter paciência é consolar-se que a correria é que o deixou distante da perfeição.

Distraídos de si mesmos, muitos correm não se sabe para onde, não se sabe do quê. Perdem o sentido da vida. Perdem o tempo. Tempo não se recupera, mas se ganha. Os instrumentos que prometem rapidez nos ajudam a não desperdiçar o tempo. Mas para ganhá-lo é preciso produzir paciência, esperança de encontrar-se consigo e com os outros. A vida ganha sentido e ganhamos tempo.

 

 

Dra. Simone Engbrecht
Psicóloga e Psicanalista – CRP 07/05555

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Matéria publicada na Revista Classic Life na Edição nº 03 – 2002
Crédito imagem: “freepik.com/ creativeart.”

 

DRA. SIMONE ENGBRECHT

Psicóloga e Psicanalista - Trabalha na área clínica com adolescentes e adultos. Consultório nas cidades de Porto Alegre e São Leopoldo | RS.