Mudar ou descartar

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Mudar ou descartar

Para qual futuro estamos nos preparando?

Outono. Estação em que as plantas perdem as folhas. Descrita também como meia estação, ou seja, uma estação de mudança. Mudança de temperatura. Qualquer mudança serve como inspiração à reflexão. O que deixamos com o verão e com o calor e para qual futuro estamos nos preparando?

Em tempos em que tudo parece mudar, pode soar estranho considerar a mudança um período, a mudança uma estação. Onde tudo vira rapidamente lixo, parece contraditório perceber que a maioria das pessoas sinta dificuldade em perder, em mudar. Escutamos sobre o mundo que consome o descartável. Embalagens, eletrodomésticos, móveis, livros e até relacionamentos descartáveis. Descartar significa rejeitar a carta do baralho que não serve. Descartar é a transformação de algo em lixo. Não está mais sendo útil, então deve ser jogado fora do que trago nas mãos. É a sobra do consumo. Enquanto consome-se, necessita-se. Quando não serve mais ao consumo, descarta-se.

Mudar é bem diferente de descartar. Mudar significa deslocar, transferir para outro local, tornar-se diferente do que era. A grande diferença está no movimento necessário para a mudança e na passividade de quem descarta.

Quem descarta, espera uma mudança naquilo que está fora. Eliminando o que não serve e para dar lugar a algo novo. Não é eliminando o passado que andamos para frente? Prender-se ao passado não é coisa de quem está deprimido? Quando muda a estação, não basta mudar o guarda-roupa? Talvez seja neste ponto que o equívoco sobre o significado de uma mudança acontece.

Não somos nós que temos poder para eliminar o passado. O presente torna-se passado através da passagem do tempo. Nós não controlamos a passagem do tempo. Gostaríamos, mas o tempo passa pelo movimento da vida. Cabe a nós fazermos luto do que foi eliminado de nossas vidas e não queríamos que tivesse sido. Mudar significa deixar para trás o que não foi descartado, mas foi perdido.  Algumas vezes, são até alguns sonhos não realizados que foram eliminados pela passagem do tempo. Perceber que alguns sonhos não poderão mais se realizar sempre é difícil. A passividade do costume em descartar, faz com que acreditemos que se não mudarmos nada, daqui a pouco o que não nos satisfaz vira lixo apenas pela passagem do tempo e o que desejamos nos será oferecido a seguir.

Distinguir entre o que podemos mudar e o que não podemos mudar é algo muito difícil. Fazer luto não é simplesmente aceitar passivamente a impotência diante da vida. Mas, mudar. Mudar… Ahhh, sim. Mudar é que requer um movimento próprio. O movimento de diferenciar o tempo. De perceber o que ficou para trás e o que há de novo. Quando o passado é apenas descartado, podemos acreditar que o novo é novo porque foi oferecido como novidade. Quando fazemos luto do que passou, percebemos novidade em quase tudo, pois a perda nos convida a observar a vida de um novo ponto de vista. Mudando o ponto de vista, nos mexemos diante da passagem do tempo.

Os outonos nunca serão os mesmos se, a cada mudança de estação, percebermos o nosso movimento diante da vida e não apenas uma espera pelo frio. 

 

Dra. Simone Engbrecht
Psicóloga e Psicanalista – CRP 07/05555

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Matéria publicada na Revista Classic Life Edição nº 21 – 2011
Crédito/imagem: “FreeImages.com/kues”

 

DRA. SIMONE ENGBRECHT

Psicóloga e Psicanalista – Trabalha na área clínica com adolescentes e adultos. Consultório nas cidades de Porto Alegre e São Leopoldo | RS.