Transtornos do comportamento alimentar na infância

ed 13 - Dra Carolina Avila -

Transtornos do comportamento alimentar na infância.

 

Sabe-se que alimentação e nutrição equilibradas são peças chaves para o crescimento e desenvolvimento de uma criança saudável. Atualmente vive-se dentro de uma realidade onde temos pouco tempo para nos dedicarmos adequadamente aos nossos filhos. A cada dia aumenta o número de crianças matriculadas em tempo integral nas escolas fazendo com que os pais passem a participar cada vez menos da rotina e alimentação de seus filhos. Devido a esta pouca participação, cada vez mais crianças vêm apresentando transtornos alimentares.

 

Dentre os mais citados, a anorexia é a mais comum, desenvolvendo-se em três principais variações:

– Anorexia comportamental: consiste basicamente em a criança se recusar a comer, tornando o alimento ou o ato da alimentação uma forma de chamar a atenção dos pais e suprimindo suas carências afetivas;

– Anorexia orgânica: neste caso existe deficiência de micro nutrientes ou propriamente elementos traços, como o ferro e o zinco, fazendo com que a criança não tenha apetite. Quando suplementados estes elementos, a criança volta a se alimentar normalmente;

– Anorexia nervosa: igual à patologia da fase adulta, o quadro se caracteriza pela criança não se alimentar devido ao medo de engordar e tornar-se gorda. Existe distorção da imagem corporal, nítido apavoramento diante da comida e ingestão de pouca ou nenhuma quantidade de alimento. Este tipo é o mais perigoso, precisando de tratamento psiquiátrico, clínico e nutricional.

 

Apesar de diferentes causas, todos os tipos de anorexia acarretam ao organismo os mesmos problemas, que são atraso no desenvolvimento cognitivo e do crescimento, desnutrição ponderal (de peso), desnutrição estatural, desnutrição pôndero-estatural (tanto déficit de peso como de estatura), tornando estas crianças mais “baixinhas” e “magrinhas” para sua idade biológica.

Além das anorexias propriamente ditas, ainda existe a pseudo-anorexia que se caracteriza por uma dificuldade na mastigação ou deglutição fazendo com que a criança se alimente de forma insuficiente. Estas dificuldades podem se dar por causa de aftas, fissuras e estomatites. Outro tipo de pseudo-anorexia é aquela em que a criança come pouco na opinião dos familiares, mas apresenta crescimento e desenvolvimento normais. Neste caso, os pais não devem se preocupar.


Excluindo-se a anorexia, ainda têm-se os seguintes transtornos do comportamento alimentar:

– Seletividade alimentar: a criança normalmente rejeita alimentos como verduras e frutas, ingerindo apenas massas, pães ou outros tipos de alimentos. Neste caso a criança não apresenta déficit de crescimento ou baixo peso, provavelmente só deficiência de micro nutrientes (vitaminas e minerais) por não ingerir frutas e verduras. A seletividade alimentar também se pode dar pela maneira de preparo, onde a criança come apenas ovo quando frito, senão não come, por exemplo. A busca pelo tratamento se dá na maioria das vezes pelas dificuldades sociais que surgem, como participar de comemorações que incluem comida e dormir na casa de amigos.

– Bulimia nervosa: assim como nos adolescentes e adultos se caracteriza por uma grande ingestão de alimentos em um período curto de tempo, seguido de um método compensatório, seja ele uso de laxantes, indução do vômito, jejuns prolongados ou prática de exercícios físicos extenuantes como medidas de controle de peso. Este tipo de transtorno ocorre nas crianças que estão mais próximas da fase da adolescência e não tanto nas crianças pré-escolares.

– Transtorno da compulsão alimentar periódica: este é um transtorno alimentar semelhante à bulimia nervosa. Todavia não existe utilização de métodos compensatórios para controle de peso. Normalmente, as crianças são obesas e os episódios de compulsão alimentar devem ocorrer pelo menos duas vezes por semana durante três meses para se ter diagnóstico positivo. Algumas características que devem estar associadas ao episódio de compulsão alimentar são: comer muito mais rápido do que o normal; comer ate se sentir desconfortavelmente empanturrado; comer grandes quantidades de comida, mesmo sem fome; comer sozinho, com vergonha da quantidade; sentir-se culpado ou deprimido depois do episódio. Assim como a bulimia e a anorexia nervosa, este tipo de transtorno é mais comum na adolescência, mas pode aparecer na infância.

– Disfagia funcional: o termo disfagia significa dificuldade para deglutir. Nesta situação, a recusa alimentar está relacionada com o medo de engolir, engasgar e vomitar, e não à preocupação com o ganho de peso. Em algumas situações, pode-se desencadear após situações traumáticas, como experiências dolorosas em exames de endoscopia ou engasgos prévios.

– Pica: este transtorno é bastante comum em crianças que possuem algum déficit cognitivo, porém qualquer criança pode desenvolvê-lo. Neste caso a criança não tem aversão à comida. Ela ingere substâncias consideradas não nutritivas como terra, tijolo, tinta, cabelos, fezes de animais, areia, insetos, folhas, pedras, cinza de cigarro e alimentos crus como feijão, milho e batata. A procura por tratamento geralmente se dá após complicações clinicas resultantes do sintoma alimentar, como por envenenamento, perfuração intestinal e verminoses. Para se ter diagnóstico positivo a ingestão de substâncias não nutritivas deve permanecer por, pelo menos, um mês.

– Ruminação: a ruminação consiste na ingestão e regurgitação do alimento por diversas vezes. Não há causa orgânica e é mais prevalente em bebês. Geralmente, tem inicio entre os três a oito meses de idade, quando a criança se encontra acordada, quieta e entretida com ela mesma. Nunca quando a criança esta dormindo ou quando ela esta ativamente interessada em algum objeto ou pessoa à sua volta. Ocorre voluntariamente, sem esforço, e repetida sem dor ou náuseas, com um volume muito pequeno de alimento expelido. Seu inicio se dá após trinta minutos do termino da refeição, podendo durar por uma hora ou mais.

 

Após toda esta explanação, fica o alerta, para os pais e cuidadores que observem seus filhos frente ao ato da alimentação. Caso exista alguma suspeita de que a criança possa estar com algum tipo de transtorno do comportamento alimentar, procure um profissional especializado para minimizar ou reverter as conseqüências advindas destas patologias. Assim seu filho, sobrinho, ou conhecido terá um desenvolvimento físico e comportamental normal.

 

Dra. Carolina de Ávila Rodrigues
Nutricionista – UNISINOS
Mestrado em Medicina – Ciências Médicas UFRGS
Professora da Rede Metodista de Educação do Sul
Professora substituta do departamento de Pediatria e Puericultura da UFRGS

 

……………………………………………………………………………..
Matéria publicada na Revista Classic Life Edição nº 13

CLASSIC LIFE | Redação

Classic Life é um site de variedades e entretenimento que visa disponibilizar aos leitores conteúdo de qualidade com objetivo informativo e educacional. Artigos sobre saúde, medicina, odontologia, nutrição, psicologia, estilo de vida, gastronomia, turismo, tecnologia, decoração, design, luxo, lançamentos, cultura, eventos, colunistas, entre outros.